Novo estudo revela que Forças de Defesa e Segurança não tem capacidade de travar grupos armados

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As Forças de Defesa e Segurança moçambicanas não têm capacidade militar para travar os ataques de grupos armados em Cabo Delgado e para inverter a situação devem melhorar a formação ou pedir apoio militar, refere um novo estudo sobre a insurgência.

análise consta do trabalho de pesquisa “Ataques terroristas em Cabo Delgado (2017-2018): as causas do fenómeno pela boca da população de Mocímboa da Praia”, realizado pela Universidade do Rovuma, uma instituição de ensino estatal do norte de Moçambique, e hoje consultado pela Lusa.

O estudo é coordenado por Geraldo Luís Macalane e Jafar Silvestre Jafar, com a participação de outros nove investigadores.

“As FDS [Forças de Defesa e Segurança] não têm capacidade militar para conter a onda de ataques. O Governo deve melhorar os treinos militares ou pedir apoio militar a outros países”, conclui a análise, que assenta em entrevistas com 206 residentes de quatro dos distritos assolados pela violência armada na província de Cabo Delgado, norte de Moçambique.

Os investigadores da Universidae do Rovuma assinalam que o Governo moçambicano não prestou atenção aos primeiros sinais de recrutamento, radicalização e treino de jovens pelos grupos armados que atuam na região.

Esses sinais, prosseguem, começaram a emergir em 2010 no distrito de Mocímboa da Praia, o “epicentro” da insurgência armada em Cabo Delgado.

“A avaliar pela origem do grupo, caracterizada pela penetração de um grupo islâmico de inspiração ‘jihadista’, recrutamento e radicalização de jovens e o tempo de frequência e permanência dos terroristas no distrito de Mocímboa da Praia, pode-se considerar este distrito como o epicentro do fenómeno”, destaca o documento.

A localização geoestrátegica – com um porto e um aeródromo -, permanentes tensões entre as etnias macondes e mwanis foram decisivos para que a vila se assumisse como uma espécie de placa giratória dos grupos armados, referiu.

A análise, com 149 páginas, observa que as FDS “não têm uma boa relação com as populações dos distritos afetados pela violência” e os entrevistados fizeram notar que os membros das forças governamentais cometem abusos como agressões, violação da privacidade e extorsão.

“A relação [das FDS] com a população não tem sido pacífica, devido ao excesso de zelo que tem caracterizado a atuação das Forças de Defesa e Segurança”, sublinha o texto.

No estudo, os grupos armados são descritos como “terroristas, de inspiração ‘jihadista’ e compostos por jovens de várias etnias e nacionalidades”.

A maior parte dos jovens aderiu aos grupos insurgentes sob promessa de emprego, bolsas de estudo em escolas corânicas e pagamento de valores pecuniários, assinalam os autores.

Os pesquisadores defendem ser urgente a mobilização de apoio internacional por parte do Governo, principalmente ao nível da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) e dos países africanos com experiência no combate ao extremismo.

No plano social e económico, defende-se a formação técnico-profissional dos jovens dos distritos atingidos pela violência armada e o seu emprego nos grandes projetos de exploração de recursos naturais, incluindo no gás e nos minérios, além da instalação de pequenas indústrias para o aproveitamento da mão-de-obra ativa local.

Por outro lado, as instituições de ensino devem incluir nos seus programas curriculares matérias viradas para a “desradicalização” dos jovens e as lideranças comunitárias devem ser envolvidas na sensibilização da juventude para os malefícios de doutrinas fundamentalistas e de ações armadas.

“É também urgente que se melhore o sistema de controlo das fronteiras terrestres e marítimas para evitar que pessoas estranhas entrem no país com material bélico ou outros engenhos que perturbem a ordem e a tranquilidade das populações”, refere o texto.

As FDS precisam de um programa de modernização e apetrechamento, visando dotá-las de capacidade operativa à altura dos desafios impostos pela ações dos “terroristas”, acrescenta o trabalho académico.

A violência armada em Cabo Delgado está a provocar uma crise humanitária com mais de duas mil mortes e 560 mil pessoas deslocadas, sem habitação, nem alimentos, concentrando-se sobretudo na capital provincial, Pemba.

Algumas das incursões de insurgentes passaram a ser reivindicadas pelo grupo ‘jihadista’ Estado Islâmico desde 2019.


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