Moçambique/Ataques: Relatos de 23 mulheres raptadas revelam bastidores da insurgência

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Relatos de 23 mulheres raptadas que escaparam das bases de rebeldes no norte de Moçambique revelam um grupo organizado que recruta crianças soldado e dá indícios de traficar raparigas para o estrangeiro, segundo um novo estudo.

“O que nos leva a levantar essa hipótese é a quantidade de mulheres que foram raptadas”, sobretudo em 2020, refere João Feijó, investigador do Observatório do Mundo Rural (OMR), organização não-governamental (ONG) moçambicana.

As mulheres raptadas que estiveram nas bases de insurgentes viram ainda “crianças e adolescentes a fazer treinos militares e lutas com catanas”, bem como “jovens há dois e três anos” no grupo, “ansiosos pela sua primeira missão”.

Uma das mulheres relata o caso de um rapaz de 14 anos “que tinha vindo da sua primeira missão” e que estava “feliz” e “realizado” por ter assassinado e degolado alguém.

A situação levanta incógnitas para o futuro: “quando a guerra terminar vai ser preciso um grande esforço de reintegração social e desradicalização destas pessoas. É importante pensar no que fazer”, destaca Feijó.

Os relatos das mulheres raptadas mostram ainda um grupo mais bem organizado do que o habitualmente descrito junto da população.

“O grupo é vendido pela comunicação social como um conjunto de vândalos e bandidos, mas eles estão muitos mais preparados do que aquilo que pensamos. Andámos a subestimar este grupo durante muitos anos”, realça Feijó.

Têm acesso a tecnologia, informação e especializações profissionais: há pessoas dedicadas a telecomunicações, filmagens, há enfermeiros, mecânicos e outros só dedicados à ação militar, refere.

O olhar por dentro da insurgência revela também um grupo heterogéneo, com estrangeiros ortodoxos, uma classe média moçambicana viajada, com influências da Tanzânia, e uma massa jovem recrutada em Cabo Delgado “que estão lá por raiva e revolta em relação ao Estado”.

“Este grupo foi capaz de recrutar a Renamo social [Resistência Nacional Moçambicana, principal partido da oposição]”, ou seja, aqueles “que se relacionam com o Estado por oposição, que têm um sentimento de revolta histórico”.

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